Patologizar

Reflexão do Psicólogo Kauê, profissional aqui da Archés:

 

“O estudo das vidas e o cuidado com a alma, significam, acima de tudo, um prolongado encontro com aquilo que está quebrado e dói – ou seja, com a psicopatologia.” (Hillman, 2010, p. 133)

Tudo começa com a dor. A existência humana é pautada em muitas realidades inescapáveis, sendo a dor uma delas. Mas para pensar a dor a priori, pensemos então em “movimento”, isso que recusa a “inércia”, tendência natural de todo corpo, toda energia em locomoção, para assim tirarmos essa visão tão moralista da dor como algo única e solenemente “ruim”. Antes de ser vista como algo ruim e/ou negativa, a dor é resultado de um conflito entre forças (ego e inconsciente) gerando assim um movimento psíquico (sintoma), e foi através desses movimentos que se iniciaram os estudos da psicologia profunda.

 

“Os insights da psicologia profunda originam-se de almas in extremis, as condições doentias, sofridas, anormais e fantásticas da psique.” (Hillman, 2010, p. 132)

 

E é a perspectiva pela qual enxergamos esses aspectos tortos, doentios, anormais, sofridos da alma que é a questão. Ao querer que o torto se alinhe, o doente se cure e o anormal normalize-se, impõem-se uma vontade egoica que nada tem a ver com a imagens que se fazem presentes nesses casos, imagens essas que só são desagradáveis e torpes diante da perspectiva do ego. Ao fazermos essa imposição, perdemos todo o potencial anímico (imaginal) do fenômeno psíquico e assim, nos distanciamos do “sentido da alma” e com isso, muitas vezes, devido a essa atitude, aquilo que até então poderia se quer ser algo patológico e/ou sofrível, passa a ser.

 

“Um padrão para uma figura pode ser patológico para outra, e patologia para uma parte pode ser normal para outra perspectiva no interior do mesmo indivíduo.” (Hillman, 2010, p.189)

 

Essa imposição do que Hillman vem a chamar de “psicologia da normalidade” parte de um ego literalizador e monoteísta, desprovendo a patologia de toda a pluralidade arquetípica de seus mitos, ou seja, seu politeísmo, as singularidades da psique objetiva, a multiplicidade da alma. Diante disso, qual seria a necessidade do patologizar através dessa perspectiva arquetípica? Hillman separa 3 razões cruciais:

  1. O sintoma é a mais sincera confissão do inconsciente, “em meu sintoma está minha alma.” (Pg. 221) e patologizar nos permite estar o mais próximos da alma.
  2. O patologizar pode ser visto em tudo na alma contemporânea, revelando sua necessidade anímica de existir através do desmembramento egoico, esse que nos aproxima dos sintomas, logo, dos deuses e mitos, permite a relação do ego fragmentado com a multiplicidade da alma. “Não é a própria psique que insiste na revisão da psicologia em termos não de picos, mas de partes?” (Pg. 227).
  3. A individuação do sintoma, a singularização obscena de cada indivíduo, o trilhar o caminho da morte imaginal é o que o patologizar propicia, se seguido até suas últimas consequências.

Além de uma linguagem metafórica e perspectiva imaginal, o patologizar é um modo de tradução, uma desliteralização das trivialidade comuns, dando profundidade e devolvendo para a dimensão do desconhecido, tornando assim eventos em experiências.

 

“Apenas quando as coisas se despedaçam é que elas se abrem para novos significados; apenas quando um hábito diário torna-se sintomático, uma função natural torna-se aflição, ou quando o corpo físico aparece nos sonhos como uma imagem patologizada, um novo significado desponta.” (Hillman, pg 231)

 

Permitir a experiência do mito, o daimon de cada um, faz parte da individuação na clínica arquetípica, o trabalho da psicologia profunda que é tanto tradicional por retornar todas as coisas aos seus princípios mais profundos, como também revolucionário pois esses mesmos princípios são os radicais da existência, a alma é patológica por excelência.

 

“Sou um indivíduo, não pela virtude das minhas feridas comuns, mas pelo que vem para mim através delas, os arquétipos dos meus mitos nos quais repousa minha loucura, meu destino e minha morte.” (Hillman, pg. 231).

 

E com isso finalizo essa breve introdução à mais um capítulo do livro Re-vendo a psicologia de James Hillman. Em breve, continuaremos Psicologizando.

 


Referência:

HILLMAN, James. Re-vendo a Psicologia. Petrópolis, RJ: Ed. Vozes, 2010. – (Coleção Reflexões Junguianas)

 

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